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Só por amor
Claudia Leschonski

Durante a temporada de Concurso Completo de Equitação de 2002, quando estava em seu 18º ano de vida, meu cavalo Flanel começou a ficar diferente durante os treinamentos diários. Não estava cansado nem manco: atacava os obstáculos com a verve de sempre, sua freqüência cardíaca continuava a ser melhor que a da maioria dos cavalos mais jovens. Mas parecia sem graça durante as longas horas de condicionamento físico necessárias a um cavalo de CCE; começava a lhe faltar o brilho no adestramento, não apenas nos treinos mas também em competições.

Cheguei à conclusão de que ele estava entediado pela rotina. Um cavalo desta idade pode ser mantido em forma por anos, mas é injusto ter expectativa de fazê-lo “subir de turma”: o nível de dificuldade das reprises, a altura dos obstáculos, a velocidade de galope: tudo se torna trabalho de manutenção. Há quanto tempo o Flanel não via novidades em sua vida competitiva? Parecia mesmo um funcionário de longa data, desmotivado pela mesmice. Assim, decidi aposentá-lo no final daquela temporada. Nossa última prova foi em dezembro, uma quinzena antes do 18º aniversário dele, e conquistamos o campeonato master (para cavaleiros acima de 35 anos) da temporada. Parecia-me o melhor momento para tirá-lo da ativa. Tê-lo apenas como cavalo de salto, modalidade em que o trabalho de condicionamento poderia ser bastante reduzido, não era uma opção, pois o Flanel nunca havia sido um saltador brilhante – na somatória de pontos do CCE, as uma ou duas faltas habituais dele no salto não eram tão graves, mas anulariam as chances dele no salto “puro”.

Algumas pessoas sugeriram que eu deveria vendê-lo ou arrendá-lo para um jovem iniciante de CCE, que se beneficiaria da experiência do cavalo, mas isso para mim estava fora de cogitação. Lembrava-me do cavalo de sete anos que só fazia empinar, empacar ou disparar, e que eu literalmente tirara da porta do abatedouro em meses e anos de trabalho árduo e por vezes perigoso. Eu sabia de quão difícil era manter o peso do Flanel, com seu histórico de úlceras gástricas originadas numa infância e juventude sofridas; sabia a facilidade com que, ainda hoje, ele podia se enfezar com uma montada brusca ou uma chicotada, e sair em louca disparada; sabia dos cuidados que tomava com ferrageamento, suplementação e equipamento para mantê-lo sem manqueiras e competindo de pernas “limpas” mesmo àquela altura da vida. Mas acima de tudo, só eu sabia do juramento que havia feito a Deus e ao Flanel onze anos antes, de que ele nunca mais passaria fome nem maus tratos enquanto eu tivesse condições de mantê-lo. Eu havia comprado e vendido alguns cavalos naquela década, mas o Flanel era, simplesmente, meu amigo. E, como uma criança certa vez me escreveu, não vendemos nossos amigos, não é mesmo?

Só quem já teve um velho cavalo de campanha, confiável e previsível em todas as suas reações, que lê nossos pensamentos e intenções – tudo como num casamento de longa data – sabe como é difícil trocá-lo por outra montada. Talvez por isso haja tantos animais mais velhos no CCE, onde o entrosamento dos parceiros pode ser uma questão de vida ou morte, e onde amadurecer um novo competidor leva anos de trabalho diário. Se o tivesse ao meu lado, ali no centro de treinamento, eu corria o risco de cair em tentação na primeira provinha, e me inscrever com o Flanel de qualquer maneira – e dali a pouco ele estaria com mais de vinte anos seguindo como titular, e o cavalo mais jovem ainda no segundo posto. Assim, o mandei para um haras de cavalos BH, pertencente a amigos, onde vivia uma turma de cavalos aposentados. Lá o Flanel passou um ano excelente, engordando na companhia de seus novos amigos. Voltei a montá-lo pela primeira vez depois de uns dois ou três meses, e depois costumava passear nele, fazer um trabalhinho de adestramento ou dar alguns saltinhos uma ou duas vezes por semana, às vezes uma vez por quinzena, conforme minha agenda permitia. Também o usava para dar algumas aulas.

No segundo semestre, os donos do haras foram estrear um cavalo em provas de salto, e tinham uma vaga no trailer. Treinei durante uma semana e levei o Flanel, inscrevendo-o numa categoria inferior à antiga. O cavalo novo deu trabalho para entrar no trailer, e chegamos ao local da prova quando minha categoria já havia começado: o tempo total que passei montada no Flanel foi de uns três minutos, incluindo trotar até a distensão, pegar galope, dar um salto de aquecimento depois que meu nome já havia sido chamado, e dali começar diretamente o percurso. O meu velhinho agiu como se tivesse competido pela última vez há nove dias, não nove meses, absolvendo o percurso com rotineira tranqüilidade. A única falta foi muito mais minha que dele, decorrente da mania por distâncias curtas que às vezes me acomete. Na mesma prova, na categoria superior saltei minha nova égua de prova, Aembé, que vinha trabalhando muito bem, com muito mais brilhantismo no salto do que o Flanel jamais tivera: já tínhamos algumas colocações em provas regionais. Entretanto, competíamos apenas em salto - naquele ano, as provas regionais de CCE, ao alcance de meu orçamento, haviam quase deixado de existir em nosso estado. Eu estava tranqüila no sentido de que minha decisão de aposentar o Flanel havia sido acertada.

Em 2004, fui me dando conta de que esta aposentadoria significava apenas abrir mão do compromisso e da obrigatoriedade dos treinamentos constantes visando as competições. Significava ter a liberdade de não precisar obrigá-lo a fazer algo num dia em que ele não estivesse com vontade. Mudei-o do haras para um outro centro hípico onde eu dava aulas uma vez por semana. Ele era usado por alguns alunos, eu o montava um pouco, e ele continuava solto a maior parte do tempo.

Nesta época um problema respiratório que ele apresentara pela primeira vez há alguns invernos, e que havia sido tratado com aparente sucesso, se transformou numa infecção de bolsas guturais, levando-o a um quadro de tosse e secreção nasal permanente. Quando finalmente chegamos ao diagnóstico correto, através de endoscopia, o Flanel estava quase incapacitado para trabalhar, tal a intolerância ao exercício provocada pela tosse. Neste ponto, amigos o convidaram para ficar internado num moderno spa eqüestre state-of-the-art. Lavagens e antibioticoterapia resolveram o problema da bolsa gutural; quando saiu de lá, estava mais bonito (e gordo) do que eu jamais o havia visto, e tão fogoso como seis ou sete anos atrás, a ponto de muita gente achar que eu havia comprado um cavalo novo.

Fomos a uma clínica de salto que seria ministrada no centro de treinamento onde o Flanel havia encerrado sua carreira competitiva, e o levei junto “só para brincar”. Quando a égua de um amigo iniciante apresentou problemas no primeiro dia, cedi a Aembé a ele e fiz a clínica com o Flanel, na turma que saltava mais baixo e procurando forçar pouco. Talvez tanto cuidado nem teria sido necessário, pois ele seguia disposto e contente, livre da tosse mesmo no calor e na poeira. Quando a turma voltou para casa, Flanel ficou por lá, junto com Aembé. Eu a montava com regularidade e ele de vez em quando, passeando, dando uns saltinhos, conforme nos desse vontade. Às vezes parava após vinte minutos, sentindo que ele não estava a fim; às vezes, até brincava nos obstáculos de cross.

Neste ponto, preciso esclarecer que estes dois cavalos já se conheciam havia quase oito anos, durante os quais a Aembé havia várias vezes saído de minhas mãos e voltado para mim. O cavalo velho e a égua mais jovem eram bons amigos e desde sempre haviam sido soltos juntos. Por isso, fomos pegos de surpresa numa tarde no final de outubro, quando o Flanel apareceu andando em três pernas, tendo tomado um coice da Aembé que causou uma fissura – felizmente não uma fratura completa – na face medial da tíbia. Foi um destes acidentes bobos, que não teria tido conseqüências se a égua não estivesse usando ferraduras.

Os primeiros dias foram terríveis, com o cavalo suando frio de dor e se recusando a comer. Em menos de uma semana, ele perdeu todo o estado físico que havia custado tanto a adquirir e de que eu tanto me orgulhara. Depois de alguns dias, ele se deitou, exausto, e depois não conseguiu levantar sozinho. Erguido por várias pessoas, ficou tão traumatizado com o evento que quase dois meses se passaram até que tentasse se deitar novamente.

A princípio, eu havia encarado de olhos bem abertos a possibilidade de que poderia ter chegado a hora de ter que sacrificar meu velho amigo. Além da fissura, a borda da ferradura havia provocado um corte profundo, que drenava mal por estar em posição vertical. A perna ficou tão inchada que parecia acometida de linfangite, e naquele primeiro momento a possibilidade de osteomielite era um risco muito mais imediato que a fratura em si. Mas quando as radiografias confirmaram que a fissura não havia atingido a medula do osso, nem deslocado ou deformado a tíbia, e quando o ferimento começou a purgar menos, decidi ter esperança. Acabou sendo uma questão de paciência, da ajuda dos amigos, de dinheiro gasto em remédios e radiografias, e da absoluta cooperação do Flanel, que logo voltou a comer melhor e aprendeu, com cautela, a alternar o peso entre a perna machucada e a sadia. Muitas fraturas de cavalos acabam mal não por causa da perna fraturada, mas por causa da outra, que desenvolve problemas devido ao excesso de esforço.

A ordem veterinária era de manter o Flanel estabulado por 24 horas durante uns dois meses, pelo menos, e eu suava frio pensando no tédio, nas úlceras e nas cólicas que poderiam seguir. Deixei-o com feno à vontade na esperança de mantê-lo ocupado, mas logo na primeira semana após o acidente, ele delicada, mas decididamente, tentou passar por cima de mim quando abri a porta da baia, deixando claro que queria sair de qualquer maneira. Em câmera lenta, o levei para pastar no local mais próximo possível da cocheira. Logo voltou a passar os dias como estava acostumado, pastando solto com uma corda comprida no cabresto. Continuava um excelente paciente, a princípio ficando quase sem sair do lugar, apoiando só a pinça do casco da perna machucada, num som arrastado que permanecerá para sempre na minha memória.

À sua maneira, o Flanel nos contava que estava se sentindo melhor à medida que ia pastar mais e mais longe. As radiografias tiradas após 45 dias mostravam um bom calo ósseo, mas densidade ainda restrita, numa calcificação lenta que era de se esperar num cavalo de quase vinte anos de idade. Depois de uns dois ou três meses ele não mancava mais a passo, e depois de mais algum tempo o tratador veio me contar radiante que o Flanel havia saído num trote espontâneo, até dando um ou dois dos corcovinhos que eram sua expressão máxima de alegria de viver. Lá por março ou abril, novas radiografias proclamaram a tíbia consolidada.

Em todo este tempo, eu sempre havia tido a intenção de, se possível, voltar a montar o Flanel, nem que fosse em passeios. Uma vez recuperado, ele nunca mancou a trote nem a galope, mas havia momentos de receio em que quase era possível ouvi-lo exclamar “vai doer!”, antecipando o retorno da dor. Além disso, a musculatura dos dois posteriores ficara muito assimétrica. E mais uma vez ele mudou de domicílio, para um pequeno manège onde eu começara a trabalhar, e cujo diferencial eram grandes pastagens morro acima e morro abaixo, onde o grupinho de cavalos passava o dia se exercitando naturalmente. O Flanel continuava sendo o cavalo mais magro da tropa, mas aos poucos também isto começou a melhorar.

Quando se monta um cavalo “calmo”, tal como a Aembé, ele pedir para parar ao invés de pedir para andar é o estado normal das coisas. Já no esquentadinho do Flanel, por muitos anos eu soubera que se ele não parecia prestes a disparar, a me puxar para os obstáculos ou a galgar a todo galope a mais longa subida, ele não estava se sentindo bem. Agora, eu precisava reeducar minha percepção dele, pensar nele como num senhor de idade que ainda sentia prazer em tarefas e exercícios, mesmo que nem sempre se atirasse para ser o primeiro da fila. Ele me dava momentos maravilhosos de trabalho de adestramento, também voltamos a saltar, mas vinte minutos de trabalho, umas duas vezes por semana, eram o bastante. Tanto para ele para mim; o importante era saber que ainda era possível fazê-lo.

Provavelmente haverá um dia em que não será mais possível montar o Flanel, e noutro dia qualquer terei que lhe dizer o derradeiro adeus. Mas prefiro olhá-lo como ele a si mesmo, que não tem noção da própria idade nem ansiedades sobre o futuro: ele apenas sabe se está se sentindo bem ou não. Levanta a cabeça, lá longe no pasto, quando escuta minha voz, e depois descansa sua cabeça sobre meu ombro. Divide comigo maçãs, barras de cereal e paçocas. Está peludo por causa do inverno, tem pêlos brancos nas pernas e nas sobrancelhas, algumas costelas ainda estão visíveis. Mas não manca nem tosse, e trabalha com prazer e disposição; ainda estes dias levou um aluno adulto em seu primeiro treino de percurso de salto, em segurança inabalável.

Mas a história, tal como quero contá-la hoje, ainda não terminou...
Uma nova prova de salto, neste último fim-de-semana. Levamos três cavalos para meu aluno, amador adulto, e meu cavalo novo, o Zacarias; os quatro fariam 0,80, estreando em provas. (A Aembé foi vendida a uma boa amiga na virada do ano; era a pessoa certa na época certa.) O Flanel foi também, para fazer 0,90, só para matar as saudades.

Três anos após sua aposentadoria, dois anos após aquela última prova de salto, menos de um ano após o acidente, ele olhou o caminhão chegando e ficou interessado. No local do concurso, aguardou sua vez com tranqüilidade, enquanto os potros arregalavam os olhos para o novo mundo à sua volta. Eu ocupada como de hábito, selei-o meio atrasada, trotei para o padoque, dei duas voltas a trote, outras tantas a galope, quatro ou cinco saltinhos baixos só para calibrar o olho, e fomos para a pista. E como se eu fosse uma estreante, não me lembro dos detalhes, talvez porque seja a mesma sensação há tantos anos, um obstáculo depois do outro, todos possíveis e inquestionáveis, com rotina como se fôssemos eternos.

Já que a vida real não é exatamente como os filmes da Disney, não ganhamos a prova – fizemos uma falta, em ritmo bem próximo do tempo ideal. Antes de deixar a pista, fui ao júri e expliquei que aquele não era um cavalo jovem em treinamento (aos quais aquela categoria estava reservada), e sim meu velho parceiro há quatorze anos, o qual só havia vindo para passear, e que por isso eu pedia que minha participação fosse registrada como hors concours. O Zaca já havia conquistado o segundo lugar na categoria dele, e para nós era o bastante para um dia: saber que a vida continua.

Alguns perguntarão: para que levar um cavalo velho a uma prova, gastar dinheiro em caminhão, inscrições, e tudo isso para uma participação simbólica? Para mim, é simples: nenhum cavalo jamais soube a diferença entre hors concours e “à vera”, entre olimpíadas e prova regional, entre ficar em primeiro e último lugar. Eles apenas sabem, porque sentem, se estão ou não agradando a seus cavaleiros. E num bom conjunto (como num bom casamento, mas creio que estou me repetindo), o maior prazer de um é perceber o prazer do outro. Pois como diz a música, há bons cavalos que nunca competiram por ouro ou prata, que nunca conheceram nada além do amor de seu cavaleiro, que correram só por amor.

Capela do Alto, 4 de setembro de 2005

P.S.1: A letra completa da música de Bill Staines está em ao lado
P.S.2: A minha maquininha digital é ardilosa para quem não a conhece, mas existe pelo menos uma foto aceitável de Flanel e de mim no dia de ontem, também ao lado.
P.S.3: Todas as datas, eventos e personagens são verídicos. O Flanel começou a ser treinado por mim em dezembro de 1991, e depois de um período de separação, o comprei em janeiro de 1994. Ele fará 21 anos em janeiro de 2006.


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  JUST FOR LOVE
Bill Staines


Many are the stories of all the fine horses
That run just for silver and gold
Down in Kentucky and all the fine places
For owners to have and to hold
But I’ll tell you of one that was swift like the seasons,
One you may never hear of
That ran with his heart on the east Texas flat plains,
He ran just for me, just for love.

Now his eyes were as bright as the sun in the morning,
His coat was a proud silver gray
A sixteen-hand devil that sounded like thunder
As his hooves beat the red Texas clay
And he never won nothing but the love of a rider
As he raced ‘neath the stars far above
‘cause he ran with his heart on the east Texas flat plains,
he ran just for me, just for love.